Rede dos Conselhos de Medicina
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Livre-se do preconceito: transtorno mental é doença, não loucura
Sex, 16 de Novembro de 2018 11:14

Mario Louzã*

 

“Achava que psiquiatra era coisa de gente louca, mas aprendi que não”, declarou a apresentadora Ana Hickmann recentemente, durante uma entrevista. Ana se referia ao estresse que sofreu durante o episódio em Belo Horizonte, quando seu quarto de hotel foi invadido por um fã armado. Ela precisou buscar ajuda especializada com um psiquiatra para superar o trauma.

A declaração da apresentadora não é um caso isolado. Em pleno século XXI, numa era em que temos acesso facilitado a todo tipo de informação, ainda há pessoas que relacionam transtornos mentais à loucura.

Lembrando que o termo “loucura” era largamente usado para toda condição da mente humana caracterizada por pensamentos tidos como anormais pela sociedade. Com o passar dos anos e, enfim, com a Lei de Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/2001), os portadores de transtornos mentais passaram a ter proteção e direitos em favor de diagnósticos específicos de doença mental ou psicopatologia.

No entanto, o preconceito com doenças mentais e terapias ainda persiste. Isso acaba intimidando e impedindo portadores de transtornos mentais de buscar tratamentos adequados e bem estabelecidos para doenças como depressão, ansiedade, transtorno de pânico, estresse pós-traumático, entre outras.

A depressão, por exemplo, tida como a “doença do século XXI”, será, até 2020, a principal razão no mundo todo a incapacitar indivíduos, segundo a OMS. Hoje em dia, mais de 120 milhões de pessoas sofrem com depressão no mundo. Só no Brasil são cerca de 17 milhões, e aproximadamente 850 mil morrem por ano em decorrência dela (normalmente por suicídio, overdose de drogas ilícitas, consumo exagerado de álcool, entre outras razões).

Ela se caracteriza por vários sintomas: tristeza profunda e contínua, apatia, desânimo, perda do interesse pelas atividades que gostava de fazer, pensamento negativo (ideias de fracasso, incapacidade, culpa, pensamentos de morte), alterações do sono, falta de libido e de apetite, entre outros.

E mesmo com tantos casos de depressão divulgados na mídia, as pessoas ainda associam a depressão à fraqueza de caráter, e acham que podem resolvê-la apenas com “força de vontade”. A verdade é que a depressão tem uma base neurobiológica, decorrente de um desequilíbrio do funcionamento de alguns neurotransmissores no cérebro.

Daí a importância de procurar ajuda médica quando os sintomas descritos se manifestarem. O tratamento da depressão envolve antidepressivos associados à psicoterapia. Vale frisar que a depressão é sim uma doença grave, que pode se tornar crônica, e deve ser tratada.

Assim como a depressão, os transtornos de ansiedade, de pânico, de bipolaridade, ou as inúmeras fobias que muitas pessoas têm são doenças como qualquer outra, igualmente exigindo tratamento com terapia e, possivelmente, medicações específicas.

Vencer os preconceitos sobre psiquiatria e buscar ajuda especializada é a melhor forma de tratar os transtornos mentais. O especialista fará uma avaliação detalhada para fazer o diagnóstico e irá indicar o melhor tratamento. É o caminho mais curto para superar a doença, recuperar o bem-estar e a qualidade de vida.

Portanto, antes de fazer um julgamento sem conhecimento de causa, busque informação e esclareça as dúvidas com um profissional médico. Só assim a doença mental deixará de ser tão estigmatizada.
 

 * Médico psiquiatra e psicanalista. Doutor em medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha – CRM-SP 34.330.

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

  

 
Com a saúde não se brinca
Seg, 29 de Outubro de 2018 11:29

Meraldo Zisman*

 


A Constituição Brasileira de 1998 reconhece/determina o direito de acesso de toda a população à saúde por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Naquele ano, mais de 70 milhões de pessoas passaram a ter direito a atendimento por ele.

Vale lembrar que o País apresentou um grande aumento populacional nos últimos 50 anos, durante os quais foram acrescidos em seu território cerca de 130 milhões de pessoas. No curto intervalo de 1991 a 2005, nossa população teve um crescimento próximo a 38 milhões de indivíduos.

Em 2050, a população brasileira será de aproximadamente 260 milhões de pessoas, conforme estimativas do IBGE, ou seja, um aumento populacional de quase 70 milhões de habitantes em relação aos 190 milhões registrados no último censo, de 2010. Além disso, a faixa da população com mais de 60 anos aumenta constantemente, o que modifica muito a pirâmide demográfica e, consequentemente, suas prioridades médicas e psicossociais.

Apesar de suas deficiências, o SUS é uma conquista do povo brasileiro, que ousou sonhar com um sistema de saúde universal e igualitário, inspirado nas melhores práticas do planeta.

São quase dois milhões de profissionais da saúde a trabalhar na linha de frente do sistema SUS. Diariamente laboram para tornar o sonho possível, apesar dos óbices crônicos da capacidade de atender com maior presteza a população, cuja maioria sofre de “doenças da pobreza”.

Em seus 30 anos, o SUS transformou a saúde no Brasil.

Por meio do Programa Nacional de Imunizações, o SUS garante à população acesso gratuito a todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 90% dos transplantes e tratamentos de alta complexidade são realizados pela rede pública. O Sistema oferece, além de assistência integral a pacientes com HIV/aids, tratamento para as patologias renais crônicas e doenças raras, e providencia também a aquisição de medicamentos dispendiosos no exterior.

Bom será frisar que uma das razões do subfinanciamento do SUS é o excesso de benefícios fiscais que os “planos de saúde” recebem do Estado brasileiro. Essa crise de subfinanciamento do SUS tende a se agravar com a Emenda Constitucional de número 95, que congela investimentos em saúde, educação e assistência social pelos próximos 20 anos.

Apesar de tudo isso, a Federação Brasileira de Planos de Saúde (Febraplan) propôs, em 10 de abril deste ano, a criação de um sistema de saúde que substituísse o SUS, fazendo com que os recursos públicos jorrassem ainda mais para as empresas privadas. A proposta prejudica os brasileiros mais vulneráveis, criando barreiras ao direito constitucional à saúde, além de sobrecarregar os custos do SUS, pendurando nele os tratamentos mais complexos.

Somos a favor do liberalismo, mas a doença e seu tratamento não podem ser abordados como mercadorias comuns. Esquecem que a primeira preocupação do povo é com a violência, sendo a saúde a segunda mais votada. Nesse contexto, mais do que a defesa dos direitos dos indivíduos, a questão que se impõe é: que modelo republicano queremos ter no Brasil?

Acautelo como médico graduado há 60 anos.

 

* É médico psicoterapeuta. Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

 

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Os reflexos da obesidade na saúde pública e privada
Seg, 29 de Outubro de 2018 11:09

Sandra Franco*


A obesidade é o terceiro ônus social mais caro no mundo, atrás apenas do fumo e da violência provocada pelas guerras e pelo terrorismo. Essa é a afirmação do diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva. Ele revela também um dado alarmante: a obesidade custa à economia global mais de US$ 2 trilhões a cada ano, quase 3% do PIB global. Ou seja, é uma grande ameaça para a saúde pública e privada no Brasil e no mundo.

Outro dado relevante é da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), apontando que o sobrepeso afeta 54% da população brasileira. Quase 20% dos homens e 24% das mulheres estão obesas. Entre as crianças menores de cinco anos, 7,3% registram sobrepeso no País.

O contraste desse levantamento relacionado ao custo da obesidade é que, segundo a FAO, há 815 milhões de pessoas morrendo de fome no mundo, ou seja, não sabem se terão o que comer no dia de amanhã ou encerram o dia com nada ou quase nada para comer. No Brasil, o número de pessoas com fome reduziu e muito, graças a alguns programas sociais implementados. Não obstante, a desnutrição começa a dar sinais preocupantes novamente, em razão da crise social, política e econômica do País.

Um estudo recente do Ministério da Saúde brasileiro revelou que, entre 2006 e 2016, a taxa de obesidade cresceu 20%. Hoje, um a cada cinco brasileiros pode ser considerado obeso. Mais da metade dos brasileiros está com sobrepeso, segundo levantamento do Governo Federal.

Tal fato afeta diretamente a saúde pública e privada, que sente o reflexo diário de milhões de pessoas com enfermidades e doenças graves oriundas da obesidade, e não há uma política de prevenção para isso. Na verdade, são poucas e isoladas as ações e programas que incentivam, principalmente na saúde privada, a alimentação saudável e o controle da obesidade.

Divulga-se constantemente na mídia que a obesidade aumenta a incidência de doenças cardiovasculares, cerebrovasculares, respiratórias, osteoarticulares, hipertensão arterial, insuficiência vascular periférica, trombose, cálculo biliar, cálculo renal, distúrbios hormonais, diabete, câncer de rim e câncer hormônio-dependente, como mama, próstata, pâncreas e outros.

Existem em algumas cidades, como o Rio de janeiro, iniciativas legais chamadas de Estatuto da Pessoa Obesa, com algumas diretrizes para auxiliar no controle e combater o avanço da obesidade, mas com foco na discriminação do obeso. O Congresso Nacional também analisa um projeto de lei federal (PL 4.328/2016) para estabelecer uma política nacional. Entretanto, no Brasil, infelizmente há uma cultura de criar leis inócuas, principalmente quando não há um bom gerenciamento de seus objetivos. A lei não é desnecessária, mas tem que acompanhar ações efetivas.

O obeso mórbido pode ser enquadrado como deficiente, desde que assim seja avaliado por equipe multiprofissional e interdisciplinar, de forma a enquadrar-se na definição do texto legal: pessoa com deficiência seria aquela que tem impedimento a longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o que, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas.

Para se ter uma ideia da falta de política pública, há casos de pessoas obesas que tiveram o atendimento negado em hospitais e postos de saúde por falta de estrutura mínima e equipamentos apropriados para recebê-los. Existem casos de dentistas sem cadeiras para suportar pessoas com peso elevado, ou hospitais onde os equipamentos de tomografia ou radiografia possuem limite de peso imposto pelo fabricante para seu uso. Logicamente, a negativa de atendimento causa um constrangimento e também uma barreira para essas pessoas.

Se é necessário buscar procedimento cirúrgico pelo SUS para tratar o obeso mórbido (como a cirurgia bariátrica, por exemplo), a espera poderá ser entre cinco e sete anos para ser operado. Muitas vezes o paciente morre antes de conseguir ser atendido.

Quando o assunto é obesidade, é fundamental prevenção e controle, o que implicaria a economia de elevados recursos financeiros destinados ao tratamento da própria doença. É necessário atuar em prol de ações efetivas de prevenção da obesidade, incentivar a alimentação saudável, as atividades físicas e o tratamento de saúde.

A ação é conjunta, entre sociedade e governo, para mudar as crescentes estatísticas. Há uma geração obesa que continuará a onerar os cofres da saúde pública e privada. É preciso encontrar uma saída para essa epidemia do século XXI, dando ao problema o tamanho que ele realmente tem.

 

*É consultora jurídica especializada em direito médico e da saúde, doutoranda em saúde pública, presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB de São José dos Campos (SP) e membro do Comitê de Ética para Pesquisa em Seres Humanos da Unesp (SJC), e presidente da Academia Brasileira de Direito Médico e da Saúde. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

  

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A honra e a dignidade dos médicos
Seg, 22 de Outubro de 2018 11:28

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima *

 

A medicina é uma das ciências mais antigas desenvolvidas pelo homem. Há relatos da atividade médica na civilização egípcia, na China, na Grécia e em Roma, antes de Cristo.

O termo “medicina” vem do latim “arte de curar” e por definição é entendido pelos dicionários como “a arte e ciência de evitar ou curar doença, ou de paliar seu(s) efeito(s)” (Aurélio, 2010). Ainda pode ser compreendido como “o conjunto de conhecimentos relativos à manutenção da saúde bem como à prevenção, tratamento e cura das doenças, traumatismos e afecções” (Houaiss, 2009).

Ao longo dos séculos, a medicina se beneficiou do avanço do olhar científico e incorporou um vasto arsenal de técnicas e procedimentos em busca dos melhores diagnósticos e terapêuticas voltados à preservação do bem-estar, da saúde e da vida do paciente, dos pontos de vista individual e coletivo.

Nesse contexto, o médico é o responsável pelo exercício amplo da medicina, agregando características inerentes à atividade. Pela sua formação e exigências do ofício, desenvolve seu trabalho mesclando, às vezes simultaneamente, características de cientista, técnico e artesão.

É na relação estabelecida com o paciente que o médico tem o elemento-chave que o conecta com sua missão. Como expresso nos Princípios Fundamentais do Código de Ética Médica: “o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”.

Infelizmente, a atuação do médico tem sido afetada por circunstâncias exteriores a sua governabilidade, mas com efeitos deletérios graves sobre os resultados pretendidos. Sinais evidentes dessas inconformidades aparecem nas falhas de execução das políticas públicas, que têm limitado seu acesso aos insumos e equipamentos necessários ao cumprimento de sua missão.

A carência de leitos de internação e de UTIs e a fragilidade estrutural dos postos e consultórios – tudo no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) – são exemplos de contextos sucessivamente denunciados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e outros órgãos de fiscalização e controle, sempre com ampla repercussão na imprensa.

Da mesma forma, percebe-se o abuso das operadoras dos planos de saúde, que interferem na autonomia dos profissionais e glosam procedimentos indicados, entre outras ações, também trazendo prejuízo ao exercício da medicina.

A isso agregam-se quadros de remuneração insuficiente (no público e no privado), jornadas exaustivas e exposição a agressões no ambiente de trabalho. Assim, no Brasil, na atualidade, ser médico é sinônimo de um profissional resiliente, capaz de superar, cotidianamente, adversidades que atravessam sua jornada nos serviços de saúde.

Contudo, os problemas – resguardadas suas dimensões e peculiaridades – não são monopólio do Brasil. Como mostra a pesquisa The Truth About Doctors, conduzida a partir de informações coletadas em 16 países (Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Índia, Filipinas, China, Japão, Coreia do Sul e Brasil), há um sentimento global de frustração entre os profissionais da medicina, a partir da percepção de que estão sendo privados de sua capacidade de cuidar e tratar.

No entanto, deve-se ter esperança. Em primeiro lugar, têm sido significativos os ganhos dos médicos no âmbito do Judiciário em ações movidas contra tentativas de invasão de competência. Em sentenças e liminares de magistrados de diferentes instâncias, o ato médico, conforme previsto na Lei nº 12.842/13, tem saído fortalecido, apontando-se claramente o que é de prática exclusiva da medicina. Além disso, as entidades médicas (CFM, Associação Médica Brasileira – AMB, Associação Nacional dos Médicos Residentes – ANMR, Federação Nacional dos Médicos – Fenam e Federação dos Médicos do Brasil – FMB) estão alinhadas e conscientes de seu papel político na defesa da profissão e da sociedade. Essa articulação demonstra força e coesão em torno de uma pauta de reivindicações, tema de debates junto às autoridades, que inclui questões como o fim da precarização dos vínculos de trabalho, a criação de uma carreira de Estado para o médico, a valorização dos profissionais, a prorrogação da moratória para abertura de novos cursos de medicina e a oferta de condições adequadas para o atendimento, entre outros pontos.

Finalmente, é importante destacar que a categoria médica possui um poderoso aliado. Segundo pesquisas de opinião pública, o brasileiro deposita maior confiança e credibilidade nos médicos. Trata-se de um patrimônio inestimável, conquistado pela dedicação e pela competência demonstrados sob qualquer circunstância.

Em outubro, quando se comemora o Dia do Médico, essas são convicções relevantes que mostram a força dos médicos e sua importância para a sociedade, destacando-se sua herança histórica, que torna possível o exercício da medicina com honra e dignidade.

 

* É presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 283 do jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 

 
Propostas para a saúde do Brasil
Seg, 15 de Outubro de 2018 12:11

Marcelo Queiroga*

 

O direito à saúde se constitui em conquista social inalienável dos brasileiros. O País optou por instituir um sistema de saúde de acesso universal, integral, igualitário e gratuito: o mais ambicioso sistema de saúde de acesso universal do mundo. A Constituição consagrou a saúde como “direto de todos e dever do Estado”, contudo, sua implementação deve decorrer de políticas públicas sociais e econômicas que “visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Os candidatos à presidência deveriam assumir com todos os brasileiros o compromisso inarredável com o aprimoramento contínuo do Sistema Único de Saúde (SUS), a fim de assegurar a consecução das políticas públicas, na medida máxima do possível, pois o preceito constitucional de acesso à saúde não pode se converter em promessa inconsequente e frustrar as justas expectativas depositadas no Poder Público. A política de saúde do novo governo deveria ter como foco: eficiência na gestão, realização integral do orçamento público da saúde, desenvolvimento do complexo industrial da saúde, criação da Agencia Nacional de Avaliação de Tecnologias em Saúde e, por fim, carreira de Estado para os profissionais do setor.

O compromisso com a eficiência da gestão e o uso correto dos recursos públicos não se restringe à área da saúde, mas, sobretudo na saúde, esse objetivo deve ser perseguido com tenacidade. Não é possível continuar com perdas de vida evitáveis, filas intermináveis nos serviços públicos de saúde e corrupção epidêmica. Para tanto, a gestão deve ser conduzida com rigor técnico e espírito público. O Ministério da Saúde não pode ser loteado para partidos políticos, como assistimos nos últimos tempos. E o novo governante terá que implementar um choque de gestão com melhoria da eficiência dos profissionais de saúde, expansão da cobertura da atenção primária de 65% para 100%, melhoria da eficiência hospitalar e foco no acompanhamento dos resultados das políticas de saúde.

O subfinanciamento do SUS, desde sua implementação, tem sido um dos óbices para o êxito das políticas de saúde no Brasil. Os brasileiros aceitaram, inclusive, apostar na CPMF (contribuição provisória sobre movimentação financeira) para ampliar as possibilidades de financiamento à saúde, mas o objetivo desejado não foi atingido. Atualmente, diante do cenário de desvios epidêmicos verificados na administração pública em geral, não há espaço para exigir esforço tributário adicional da sociedade brasileira. No entanto, o novo governo terá que realizar integralmente o orçamento destinado à saúde, sem cortes, com aumento de oferta do pacote de serviços, sobretudo em decorrência de uma maior eficiência na gestão.

O estímulo à indústria brasileira de equipamentos médicos e hospitalares deveria ser prioridade, com papel importante na garantia do atendimento à população. O desenvolvimento do complexo industrial da saúde atenderia em grande parte o SUS, promovendo inclusive preços competitivos, abaixo dos valores usuais de mercado internacional. Atualmente, grande parte da crescente demanda interna é saciada com importações e, com isso, o saldo da balança comercial do setor é deficitário. O Brasil apresenta um ambiente que pode ser muito favorável ao desenvolvimento da indústria de materiais e equipamentos médicos de relevância global, em particular de dispositivos médicos implantáveis, que atendam totalmente a demanda do SUS e promovam a expansão do atendimento público da saúde no Brasil com produtos de qualidade e tecnologia avançada, com preços competitivos.

Atualmente, um dos principais problemas do sistema de saúde no Brasil é a intensa judicialização que consome parte do orçamento e inverte as prioridades do SUS. É necessário aprimorar os processos de avaliação de tecnologias em saúde com a criação de uma agência nacional de avaliação de tecnologias que confira maior credibilidade ao processo, reduzindo as demandas judiciais.

A adoção da carreira de Estado para os profissionais da saúde, um anseio dos que atuam no serviço público, seria uma possibilidade concreta de equalizar as diferenças decorrentes do gigantismo no Brasil. A eficiência das políticas de saúde decorrem da qualificação dos recursos humanos.

O novo governante precisa olhar de frente os problemas de saúde e elegê-los como prioridade para virarmos de vez essa página e nos tornar referência mundial em atendimento público. Isso é possível, basta vontade política.

 

* Presidente eleito para o biênio 2020/2021 da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

  

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